Aumentou o uso de medicações para tratar o transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH) tanto por adultos quanto por crianças entre 2001 e 2015, afirma um grande estudo observacional envolvendo mais de 154 milhões de pessoas em 14 países da Europa, América do Norte, Ásia e Oceania publicado nesta quinta-feira no periódico médico “The Lancet Psychiatry”. Mas as receitas não estão acompanhando o crescimento nos diagnósticos do problema em vários países, o que indica que muitas de suas vítimas seguem sem receber tratamento.

O estudo é o primeiro a fornecer uma análise compreensiva das tendências de uso de medicações para TDAH no mundo. Estimativas globais sugerem que o transtorno afeta entre 5% a 7% das crianças e cerca de 2,5% dos adultos. Mas embora o uso da medicação por crianças e adolescentes com entre três e 18 anos de idade tenha crescido em todos países avaliados, ele ainda varia muito, indo de 0,3% da população nesta faixa etária na França a 6,7% entre os beneficiários do programa Medicaid nos EUA em 2010. Já entre adultos, o uso destas drogas é muito menos comum, variando de 0,003% no Japão a 1,5% entre os segurados nos EUA no mesmo ano de 2010.

Segundo os pesquisadores, as grandes e persistentes disparidades no uso de remédios para o TDAH entre os diversos países e regiões indicam marcadas diferenças na abordagem clínica para o tratamento do transtorno, demonstrando a necessidade da criação de diretrizes baseadas em evidências na gestão do problema de forma que todos indivíduos com ele recebem a melhor terapia possível.

O TDAH é a desordem de neurodesenvolvimento mais comum em crianças. Mas o transtorno pode se prolongar por toda a vida, com ao menos dois terços delas continuando a apresentar sintomas na idade adulta. Outro estudo recente pulicado no “The Lancet Psychiatry” mostrou que os medicamentos para TDAH são uma opção eficaz e segura de tratamento da condição tanto em crianças quanto em adolescentes e adultos.

– O que é especialmente importante em nossos resultados é que as taxas de prescrição e tipos de tratamentos medicamentosos receitados parecem depender grandemente de onde você mora – diz Ian Wong, professor da Universidade de Hong Kong e um dos líderes do novo estudo. – Acreditamos que o aumento na prescrição de medicamentos para o TDAH reflete uma maior conscientização sobre o transtorno e o reconhecimento da importância de um tratamento eficaz para evitar problemas de longo prazo. Ainda assim, em muitos países as taxas de prescrição são consideravelmente menores que as estimativas de prevalência do TDAH, indicando que muitos casos do transtorno não são diagnosticados e tratados, especialmente em nações da Ásia, onde o uso (dos remédios) é baixo. Por outro lado, nos EUA, onde em muitos estados as taxas de prescrição superam a prevalência da condição, não podemos descartar a possibilidade de o TDAH estar sendo sobrediagnosticado e sobremedicado. Precisamos monitorar a segurança da medicação e sua eficácia na população exposta, particularmente em adultos.

Apesar das preocupações com o aumento do uso de drogas para o TDAH e a prescrição imprópria destes remédios, até a realização deste estudo pouco se sabia sobre as tendências e padrões de administração desses medicamentos nas diferentes regiões do mundo, especialmente entre adultos.

O estudo analisou prontuários eletrônicos de pacientes em 14 países do Norte e Oeste da Europa, Ásia, Austrália e América do Norte para comparar o uso dos medicamentos para o TDAH por mais de 154 milhões de indivíduos com mais de três anos de idade entre 2001 e 2015. Os autores destacam, porém, que os dados de prevalência da condição não estavam disponíveis para todos países em todos os anos.

No período abrangido pelo estudo, uma média de 2% das crianças e jovens com três a 18 anos e 0,4% dos adultos receberam pelo menos uma prescrição de droga para o TDAH. A prevalência regional foi maior na América do Norte, onde 4,5% das crianças e 1,4% dos adultos foram medicados para o transtorno, e menor no Oeste da Europa, com só 0,7% das crianças e 0,03% dos adultos recebendo indicação de tratamento farmacológico da condição.

O aumento no uso da medicação para o TDAH foi mais pronunciado entre as crianças e jovens do Canadá, com uma elevação média de mais de 45% ao ano – de 0,2% deles recebendo as drogas em 2001 para 1,8% em 2009. Já entre os adultos, o crescimento foi mais rápido no Japão, com uma alta média de 76% ao ano, indo de 0,003% medicados para o transtorno em 2010 para 0,5% em 2015. Assim, apesar do grande aumento, o tratamento medicamentoso do TDAH em adultos continua baixo no país.

Comparativamente, nos EUA, onde o uso de medicamentos para o TDAH já é alto, a taxa de crescimento na sua prescrição foi menor que em outros países tanto entre crianças – por volta de 3% ao ano, indo de 4,6% delas sendo tratadas farmacologicamente em 2002 para 5,6% em 2014 – quanto entre adultos – cerca de 13% ao ano, de 0,42% deles sendo tratados em 2001 para 2,1% em 2014.

Na Europa, crianças e adultos do Norte do continente recebem cada vez mais prescrições de medicamentos para o TDAH na comparação com os habitantes de países do Oeste, com taxas especialmente altas de tratamento farmacológico sendo observadas na Islândia: 5% das crianças e 1,6% dos adultos em 2013.

Adicionalmente, foram registros aumentos médios no uso da medicação de 22% ao ano da Finlândia (de 0,2% das crianças em 2005 para 1% em 2012) e de 29% na Dinamarca (de 0,03% dos adultos em 2001 para 0,52% em 2013), enquanto o crescimento no tratamento farmacológico de crianças para TDAH no Reino Unido foi muito mais lento (5% ao ano; de 0,3% delas em 2001 para 0,64% em 2014).

Os tipos de medicamentos prescritos também variaram. O metilfenidato foi o remédio mais comum para o TDAH em todos os países em 2010, indo de 90% dos pacientes em Hong Kong, Taiwan, Canadá, Finlândia e Espanha a menos de 60% deles na Austrália e 45% dos beneficiários do Medicaid nos EUA. O tratamento mais usado pelos pacientes segurados nos EUA foi a anfetamina (41%), seguida pelo metilfenidato (34%) e a lisdexanfetamina (21%).

Os autores especulam que a variação nas práticas de prescrição é provavelmente resultado de diversos fatores, incluindo vários critérios de diagnóstico e limites para o tratamento de indivíduos com TDAH, disponibilidade e custo dos medicamentos, a diferenças regionais e nacionais nas diretrizes de tratamento. As diretrizes do Instituto Nacional para Excelência em Saúde e Cuidado da Inglaterra e País de Gales (Nice, na sigla em inglês), por exemplo, até recentemente recomendavam o tratamento não farmacológico do TDAH em crianças e jovens com mais de seis anos, enquanto a Academia Americana de Pediatria e a Academia de Psiquiatria de Crianças e Adolescentes dos EUA recomendam os remédios como tratamento de primeira linha para a condição nas suas diretrizes.

– Precisamos de renovados esforços para melhorar a identificação e tratamento do TDAH na comunidade internacional, desenvolver um consenso sobre as melhores práticas e implementar tais práticas – defende Patrick Ip, também da Universidade de Hong Kong e um dos coautores do estudo. – Mais pesquisas são necessárias para demonstrar a segurança e eficácia das medicações para o TDAH e desenvolver diretrizes para seu tratamento baseadas em evidências, especialmente para adultos.

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